A terapia do contratante

A terapia do contratante

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Contexto

Fazer um post inaugural não é uma tarefa fácil. O rol de possíveis pautas para se escrever é infinito, e qualquer caminho escolhido pode incorrer em um paradoxo da escolha.

Como estamos entrando em uma nova fase aqui na Verlindo, que inclui uma transformação na forma de ver os projetos (e também concluimos nosso novo site!), acho que vale a pena o risco de olhar para uma direção pouco abordada: a de quem contrata

MAIS UM DETALHE ANTES DE COMEÇAR.

O post a seguir foi desenvolvido com base em nossas experiências no mercado de pequenos, médios e algumas instituições governamentais que atendemos. É provável que, em cenários diferentes destes, a dinâmica seja outra. Mesmo assim esperamos que as informações lhe sejam úteis de alguma maneira.

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Por que escrever um post como este?

Pode parecer um pouco de ousadia colocar sob a lente da análise justamente quem paga as contas de uma empresa de comunicação. De fato, antes de qualquer intenção de polemizar o assunto, o nosso intuito é abrir os olhos dos clientes para uma situação tão obscura quanto crítica:

Comunicação não é bem como o ramo de cabeleireiros, onde basta você pagar, sentar e esperar que o especialista chegue ao resultado.

Na verdade é mais como terapia. Na terapia, o terapeutizado faz parte do time, precisa cumprir tarefas, tem responsabilidades, enfim, responde por metade do resultado.

Imagine-se entrando em um consultório terapêutico e dizendo “Doutor, me salve, estou com depressão! Tome este dinheiro. Vou voltar para casa enquanto você trabalha no meu caso, ok?”.

Com certeza o resultado seria uma série de mal-entendidos, idas-e-vindas, frustração e desperdício de tempo e dinheiro. Parece pouco óbvio, mas um projeto que passa por várias refações gera ônus tanto para quem contrata quanto para quem executa.
Poucas empresas assumem isso. Preferem reclamar do cliente pelas costas, dizer que não sabe o que quer, que não se interessa pelo processo, que é ignorante. Mas a verdade é que durante a execução de projetos poucas chamam o contratante para algumas responsabilidades. Talvez por nem saber quais seriam.

Listamos aqui algumas atitudes de nossos clientes que fazem muita diferença na hora de desenvolver um projeto. Não se tratam de postulados, nem regras impostas, mas sim do resultado da observação de alguns contratantes, cujos resultados de seus projetos realizados conosco foram mais expressivos.

Acreditamos que se pudéssemos compartilhar isso com mais pessoas, empresários, contratantes, talvez fosse possível ajudá-los a realmente alcançar suas metas esperados quando contratarem alguma empresa de comunicação.

Atitudes que fazem a diferença

01. Evite delegar. Quanto mais próximo você estiver do projeto, mais eficiente ele fica.

Se possível, esteja presente pelo menos em algumas etapas do trabalho, principalmente a inicial.

Quando você delega um processo de comunicação para alguém, acaba deixando uma parte vital de sua empresa inteiramente sob os cuidados de quem não necessariamente responde por ela. Isso pode gerar refações, más-interpretações, e falta de qualidade no discurso das peças de comunicação.

Você pode pensar “ora, mas aí o contratado é obrigado a fazer de novo”. Obviamente é um raciocínio correto, mas é importante considerar que quanto maior a quantidade de iterações (repetições) no processo, mais ele perde em qualidade. Isso é inevitável. As equipes se cansam, as informações se confundem, e uma bela hora estão todos (cliente e agência) tentando desesperadamente concluir o trabalho apenas para livrar-se do suplício de ter de acompanhá-lo.

02. Tente especificar seus objetivos. Assim os resultados também serão específicos.

Imagine de novo que, quando você contrata uma empresa de comunicação, você está indo ao terapeuta. Não adianta chegar a um consultório e dizer “bom, estou com um problema, só não sei qual é”. No caso do terapeuta, que já é treinado nestes dilemas da mente, é provável que ele lhe investigue o suficiente até encontrar o problema.

Entretanto, a comunicação é feita de uma matéria mais fugidia ainda: a qualidade de vida da sua marca. Sendo assim, considere investir uma ou duas horas de reflexão sobre o que você espera de um produto ou uma campanha de comunicação.

Nós listamos alguns exemplos abaixo para facilitar o entendimento:

  • Quero saber quem é meu público
  • Quero que meu público entenda meu produto
  • Quero aumentar as vendas de meu produto ou serviço
  • Quero lançar um produto ou serviço
  • Quero convencer meu público a tomar uma atitude X em relação a um produto, serviço, ou causa Y.

É claro que se você não souber ao certo qual objetivo deseja alcançar, cabe à agência ajudá-lo. Neste caso, o melhor é estar preparado para investir mais tempo na pesquisa de sua meta junto à agência do que iniciar o projeto em uma direção arbitrária apenas para ter a sensação de que o problema está sendo resolvido.

03. Escolha um especialista pela competência, e não pelo preço

Vivemos uma época onde o preço é o rei. Entretanto, considere que se você tem um objetivo específico, e uma empresa cobra metade do preço da outra, mas não o ajuda a atingir sua meta, ela é mais cara do que a outra. Invariavelmente.

Como costumamos conversar aqui na Verlindo: para pilotar um avião é necessário competência, e não boa vontade.

Sendo assim, além do preço, certifique-se de que a empresa contratada tem meios de ajudá-lo a atingir seu objetivo. Pergunte sobre seu método de trabalho, pergunte por casos anteriores, conheça a equipe, pergunte aberta e honestamente sobre as oportunidades e riscos de seu projeto.

Isso nos leva ao próximo item.

04. Quanto mais você aprender sobre comunicação, mais maduro será seu projeto.

Você compraria um ingrediente de cozinha caro sem saber de que se trata? Você compraria uma custosa peça de automóvel sem avaliar se precisa dela, para que ela serve, se ela se adequa ao seu veículo? Torcemos para que a resposta seja não.

Sendo assim, não há nenhuma razão para adquirir produtos de comunicação sem saber de que se tratam. Esse é um problema frequente e que gera grande frustração em alguns donos de negócio. A expectativa inicial é a de que “Vou pagar por isso, eles vão resolver e eu não vou precisar me meter nesse assunto”.

Ledo engano!

Você é parte do processo. Você conhece mais a sua empresa do que a agência e provavelmente conhece mais o seu público. Você é peça chave no processo, e qualquer abstenção de sua parte pode comprometer a qualidade final e eficência do produto.

Obviamente não se espera que você execute o processo, do contrário não haveria necessidade de um especialista. Ainda assim, quanto mais trocas de informações houver entre você e seu contratado, mais ele será capaz de produzir algo que atenda tanto as suas expectativas quanto gere resultados para sua marca.

Isso não quer dizer necessariamente intervir obsessivamente no processo a ponto de estagná-lo ou retirar do trabalho qualquer chance de ter apelo ou efetivade. Mas sim se interessar, perguntar, tirar dúvidas, oferecer insights, para que o produto final seja também uma cria sua.

Isso faz bem para o seu produto, que é o principal beneficiado em um processo de comunicação.

05. Ouça mais o seu especialista contratado

Se você o contratou, provavelmente o julgou capaz de realizar a tarefa que tinha em mente, correto? Aproveite a agência que você contratou. Peça insights sinceros sobre o que deve ser feito, e então os analise com cuidado em um momento posterior.

Muitos contratantes têm medo de perder o poder sobre alguma instância de seu negócio ou de parecer fracos e ignorantes frente a algum processo de trabalho do qual pouco conhecem.

Na verdade essa é uma ótima oportunidade para você e sua empresa.

Não tenha vergonha de perguntar, averiguar, pesquisar. Evite utilizar o contratado como um capataz que vai chicoteando as ideias que você mesmo teve até que elas virem produtos estéreis e sem vida. Se você está contratando uma empresa para criar algo para você, permita que ela o faça, aprenda com o processo e torne-se parte da equipe, você vai ver uma diferença sensível na qualidade no produto final

Conclusão

Enfim. Fizemos um post extenso, ainda que introdutório. O assunto demanda muitas outras perspectivas e acreditamos que este mesmo assunto pode (e deve) ser revisado inúmeras vezes.

A questão fundamental aqui é a de que, em comunicação, o cliente é um facilitador do processo de promoção de seu produto. Portanto (e ao contrário do que se diz por aí), cliente nem sempre tem a razão. O foco está no [glossary slug=’produto’]produto[/glossary], esse sim, o centro de todo o processo.

A campanha, site ou ação resultante do trabalho de comunicação é uma consequência da relação entre o contratante e o contratado. E quanto mais bilateral for o processo (ou seja, exigir envolvimento de ambas as partes), maior a chance do projeto ser bem-sucedido e alcançar os objetivos inicialmente delineados.

Por fim, voltamos à cena inicial, se sua marca tivesse um problema a ser resolvido, e precisasse de terapia, onde você gostaria de estar? Em casa, longe do divã ou junto dela e do terapeuta?

O que você acha?

Nossos artigos têm a intenção de levantar questionamentos e conversações sobre assuntos importantes dentro do universo da comunicação e do design. Sua opinião (a favor ou contra) é muito importante para nós. Deixe abaixo seu comentário e participe da conversa.

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Ilustração: Cacá Soares

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